terça-feira, 1 de junho de 2010

A CONSTRUÇÃO, PASSO A PASSO, DE UM MUSEU EM LAGOS

I – A SECÇÃO DE ARTE SACRA

(HISTÓRIAS, FOTOGRAFIAS, DIFICULDADES E IMPRESCINDÍVEIS AJUDAS)

{ Nota: TAL COMO EM TODAS AS OUTRAS PUBLICAÇÕES DO BLOGUE, CLIQUE POR FAVOR NAS FOTOS PARA AS VER AMPLIADAS}

Estamos no ano de 1928.

A “Igreja de Santo António dos Militares”, ainda que declarada Monumento Nacional pelo Decreto-lei nº 9 842 de 20 de Junho de 1924, caminha para a ruína. A excepcional pintura da abóbada de berço que a abriga está ferida de morte; tantas e tais são as infiltrações da água das chuvas que lhe borram a pintura e lhe atacam a estrutura.

A exuberante talha dourada que a cobre, desde o lambril até ao início da abóbada, vai-se desprendendo a cada toque mais ressoante do trombone, ou a cada vibração de um mais forte toque de bombo ou de pratos que a banda faça soar nos seus mais ou menos barulhentos ensaios filarmónicos; porque se passam na casa do lado,“colada” à Igreja que também é pertença do então Ministério da Guerra.

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A entrada para a casa onde a banda ensaiava

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Como bem se vê, colada à Igreja

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O Pórtico que dignificará essa entrada, ainda no quartel dos bombeiros

(Espécime curioso da Renascença, este Pórtico com os seus dois medalhões primorosamente modelados; pertencia à antiga Ermida do Espírito Santo, sucessivamente transformada em armazém de vinhos; sede do Compromisso Marítimo de Lagos; e finalmente, quartel dos bombeiros).

Mas voltemos à Igreja; até parecia que as intempéries, umas das forças da natureza, outras das “forças da arte musical”, aliadas à proverbial falta de cuidado e de meios financeiros das entidades oficiais responsáveis, iam de mãos dadas permitindo a “chacina” daquilo que sempre se considerou o “ex-libris” da cidade de Lagos, tal a distância da Arte que apresenta, a tudo o resto que existe na cidade!

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Na realidade, uma maravilha !

O dia 11 de Março é porém o do início da esperança. Como noticia o Jornal “Terra Algarvia”, o Ministro da Guerra (Ten-Cor. Passos e Souza) e o da Instrução (Dr. Alfredo Magalhães) visitam em conjunto a Igreja!

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E, caso raro neste País, entendem-se e dão-se as mãos para salvar a Igreja (!). Fica assim acordada a transferência da tutela do Ministério da Guerra para o da Instrução, o que efectivamente sucede a 15 de Julho de 1929.

Logo o Dr. Formosinho, na qualidade de membro da “Comissão Municipal de Iniciativa e Turismo” (ao tempo organismo importante no Concelho) se antecipa a umas necessárias escavações para a implantação de uma rede de esgotos e consegue da Câmara Municipal a aprovação de uma sua proposta para a criação de um museu onde pudessem ser arrecadados todos os valores artísticos e arqueológicos, quer os já existentes e dispersos, quer os que porventura viessem a ser encontrados.

Apresenta-se seguidamente fac-símile da “Acta da Sessão Ordinária da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lagos” de 23 de Agosto de 1930, onde no seu ponto quarto se pode ler : “Nomear Conservador do mesmo Muzeu, sem direito a qualquer remuneração, o Exmo. Senhor Doutor José dos Santos Pimenta Formosinho, notário público nesta cidade.”

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Logo por esta data, a 27 de Setembro de 1930, são iniciados trabalhos de pedreiro e de carpinteiro na única dependência da Igreja que o merecia, a SACRISTIA ! E como a Igreja continuava ao culto não era possível instalar mais que objectos de Arte Sacra. E que belos ! E que perdas irreparáveis se evitaram, sendo muito justo destacar aqui as amáveis e tão prestáveis colaborações, quer dos Párocos de Santa Maria e de São Sebastião, quer dos dirigentes dos diversos movimentos católicos existentes e fieis guardas das preciosidades que depositaram no Museu !

São de referir concretamente movimentos como: “Confraria do Sº Sº da Igreja de Santa Maria”; “Antiga Igreja do Espírito Santo”; “Ordem 3ª do Carmo”; “Direcção do Compromisso Marítimo”, “Direcção da Misericórdia” etc, etc.

Pode dizer-se que todos os que de alguma maneira tinham responsabilidades nesta área, encheram com os “seus despojos” a pequena Sacristia da Igreja de Santo António.

E veja-se o resultado, sem comentários, porque as imagens valem muito mais que as palavras :

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São Gonçalo de Lagos (o único Santo algarvio)

Um ano é passado! E o Dr. Formosinho, partindo do zero, montou uma Secção de Arte Sacra e de seguida queixou-se: “A Câmara criou o Museu, mas nem arranjou casa para ele se instalar, nem sequer o baptizou”.

“MUSEU REGIONAL DE SANTO ANTÓNIO” é o nome que propõe e que a Câmara aprova; e é impresso papel de cartas com este nome do Museu que assim também aparece nos jornais

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(Carta timbrada e utilizada numa “cunha” para o Ministro Duarte Pacheco afim de ser autorizada a transferência do Pórtico Renascença do quartel dos bombeiros, para a dependência da Igreja de Santo António)

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Entretanto, que fazer com o casarão velho – casa escura, pequena e absolutamente imprópria – a tal onde a banda do regimento ensaiava, promovendo a queda dos elementos da talha dourada, fosse flor, ou anjinho, ou simples bocado de madeira, que tudo “servia à destruição” … !

Assim não havia hipótese de instalar fosse o que fosse !

“Escrevi ao Couto (era o Dr. João Couto, Director do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa) e ao Ministro … Fui novamente a Lisboa, seringuei um pouco mais e a obra fez-se.”

Começava então o que se tornaria numa parceria imbatível : o Dr. José Formosinho, por um lado e a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, por outro ! Assim a população de Lagos conseguiu assistir embevecida às ampliações sucessivas do “seu” Museu desde 1931 a 1954 !

Entretanto em 1936, um Presidente da Câmara de Faro, lamenta-se. É que em Faro já há um Museu de Santo António e teme as confusões.

O Dr. Formosinho, que entretanto pretendia interessar as Câmaras de Aljezur e de Vila do Bispo na criação do museu DESTA REGIÃO, diz, num seu célebre e extenso relatório de 19 de Dezembro de 1945, dirigido ao Presidente e Vereadores da C. M. de Lagos :

« . . . Outro assunto é a denominação do Museu : começou por ser “Museu Municipal de Lagos”, depois em alguns ofícios, chamou-se-lhe “Museu Municipal Regional”, depois “Museu Regional de Santo António” e por fim “Museu Regional de Lagos”, parecendo ser este o que melhor deverá ser adoptado e fixado em Sessão Camarária para que fique oficializado. Proponho portanto à Câmara como conclusões:

1º – Que a Câmara fixe definitivamente o nome de MUSEU REGIONAL DE LAGOS que nestes últimos anos tem adoptado.

. . . . . . . . . . . . . . . »

A Câmara, evidentemente, aplaudiu. Este nome, ao longo dos anos, granjeou fama e respeito científico internacional.

O definitivo durou até 1988 . . . Vá lá ! Vá lá!

* * *

Lagos sempre se distinguiu por ser um alfobre de artistas, de que a sua Escola Industrial Vitorino Damásio era o viveiro mais evidente. Por ela passaram grandes cultores da belas-artes desde directores como Falcão Trigoso, ou Joaquim Ferreira da Costa, (a quem a Câmara, em 28 de Março de 1931, agradece o trabalho de restauro que efectuou nos “Quadros dos Milagres de Santo António”, colaborando desinteressadamente com o Dr. Formosinho na obra de restauro da Igreja), até técnicos como Mestre António Penisga, artista de primeira água, lacobrigense de gema, também colaborante no restauro desinteressado da Igreja de Santo António e obrigatório cenógrafo das inúmeras peças teatrais que, no Teatro Gil Vicente, brindavam de quando em vez, as noites das gentes lacobrigenses.

Repare-se no cenário por ele pintado (para uma peça em que, apesar do bailado, era satirizado o dedicadíssimo contínuo Francisco Duarte, “o Xangai”) e note-se a semelhança com o que então existia :

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Estamos em 1932 ! Acabámos a ARTE SACRA !

Até 1934, se Deus quiser !

A ver vamos como fica o Museu na tal velha casa onde a banda do regimento ensaiava.

Mas atenção que o Dr. Formosinho vai começar com as suas explorações arqueológicas : Corte de Pêro Jacques; Sítio da Fronteira; Arrifos do Poço; Cerca do Álamo; Monte da Várzea; Alcalar; Almadeninha; Boca do Rio; etc., etc., são nomes que nos vão ser familiares.

Quer dizer : vem aí a SECÇÃO DE ARQUEOLOGIA ! Até lá !

sexta-feira, 28 de maio de 2010

ABICADA - Epílogo

Como mais vale uma fotografia que mil palavras, aqui se deixam algumas fotos, que bem ilustram o que hoje poderia ser, como o Dr. José Formosinho sonhou, uma importante estação de estudo da época romana :

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O primeiro mosaico destapado na Abicada

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Vista geral a meio das escavações

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Planta das ruínas romanas da Abicada (a quando da abrupta interrupção dos trabalhos)

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Vistas parciais de alguns dos mosaicos das divisões definidas na planta

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Os “tanques de salga” (posteriormente destruídos pelos donos do terreno)

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O Dr. Formosinho durante a sua campanha de escavações na Abicada

Exemplos de alguns dos mosaicos descobertos na Abicada

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Pode certamente perceber-se, agora melhor, a preocupação do Dr. Formosinho com o atraso da qualificação de monumento arqueológico nacional e a consequente e progressiva deterioração (por destruição e roubo de material) observada nas ruínas, à medida que o tempo passava.

Infelizmente e qualquer que seja o sistema político que esteja em vigor em Portugal, o relaxamento nacional e certos interesses mesquinhos sempre fizeram valer as suas leis. Repare-se então na seguinte “maravilha” de sequência :

  1. DEZ/ 1935 : documento do Dr. Formosinho para o Director-Geral dos Monumentos Nacionais a pedir que o problema da “Abicada” seja considerado pelas instância nacionais com a maior urgência possível afim de poderem ser salvos os lindos mosaicos já descobertos;
  2. JAN/ 1937 : ofício da D-G dos Edifícios e Monumentos Nacionais informando da nomeação de um Arquitecto Director que, na primeira oportunidade, virá à região tratar do assunto;
  3. SET/ 1937 : carta do Dr. Formosinho a perguntar se deve voltar a tapar os chãos já descobertos, para evitar “que o inverno pudesse prejudicar o salva-mento de tão precioso documento da época romana” ao que obtém como resposta que “as obras a realizar na Estação Arqueológica da Abicada serão iniciadas logo que o Exmº.Snr.Director do Monumentos Nacionais regresse da sua viagem de estudo ao estrangeiro”;
  4. NOV/ 1937 : carta para a Delegação dos Monumentos Nacionais em Évora em que o Dr. Formosinho se lamenta pelo estado de deterioração em que encontrou os lindos mosaicos que desde havia dois anos vinha pretendendo salvar;
  5. SET/ 1938 : carta em que o Dr. Formosinho relata a verificação da destruição de dois mosaicos e em que diz iniciar uma nova exploração para procurar outros, uma vez que os vestígios das construções se prolongavam; afirma ainda que “Conímbriga tem uma área talvez 20 vezes a que está, por enquanto,explorada na Abicada. Mas não tem a profusão de mosaicos aqui encontrados”;
  6. OUT/ 1938 : ofício da D-G-do Ensino Superior e das Belas Artes informando que o D-G julga que a estação merece classificação pelo que vai “fazer imediatamente a respectiva proposta à Junta Nacional de Educação; e esta, segundo a norma seguida, escolherá um delegado que visitará a estação e dará parecer sôbre a minha proposta”;
  7. DEZ/ 1938 : Vinda do Dr. Manuel Heleno, como delegado prometido, pelo D-G, para fazer o parecer;
  8. MAI/ 1940 : dado o parecer pelo Dr. Manuel Heleno;(2 anos depois !!!)
  9. SET/ 1940 : classificação da ABICADA pelo Decº-Lei 30.762 de 26 de Setembro de 1940 ;
  10. NOTE-SE ENTRETANTO QUE ESTA CLASSIFICAÇÃO EM NADA ALTEROU A SITUAÇÃO DA ABICADA ;
  11. AGO/ 1943 : revogação da classificação (3 anos depois ??? !!!) pelo Decº-Lei 32.973 de 18 de Agosto de 1943 ;
  12. JAN/ 1944 : resposta da Repartição do Património da D-G da Fazenda Pública, do Ministério das Finanças a um ofício do Dr. Formosinho de 18 de Novembro de 1940 (4 anos depois!)

Apresentam-se de seguida vários fac-símiles de alguns dos ofícios trocados entre o Dr. Formosinho e várias entidades públicas, ainda e sempre sobre uma, tão desejada como hipotética, consolidação das ruínas romanas da Abicada.

Chama-se, entretanto, a atenção do leitor para os dois últimos fac-símiles que correspondem ao verso e reverso de um ofício resposta do Dr. Formosinho para o Director-Geral da Fazenda Pública, em 17 de Abril de 1945 – iam dez anos de uma luta inglória para tentar salvar um riquíssimo e insubstituível património cultural de Portugal !

No reverso pode ler-se: “ Eu porém, não devo mais pensar na Abicada : um dos maiores desgostos da minha vida foi tê-la descoberto.”

Infelizmente o Dr. José Formosinho tinha razão !

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sábado, 13 de março de 2010

ABICADA – A História e as Efemérides

  • A História

( apontamento dactilografado pelo Dr. José Formosinho em 1940 )

  1. Estando a organizar o Museu Regional de Lagos e recordando-me de ter visto no sítio da Abicada restos de um chão de mosaico já bastante deteriorado, resolvi salvar o que dele existisse trazendo-o para o Museu, para o que em fins de 1935 me dirigi à Firma " Severo Ramos Lª ", pedindo essa autorização .
  2. Combinada certa indemnização pelos prejuízos que causasse iniciei os trabalhos . Mas ao destapar o referido chão verifiquei que estava muito mais completo do que eu supunha e simultaneamente mandando abrir umas valas por suspeitar que mais alguma coisa haveria, descubro mais quatro chãos e muitos vestígios de construções. Embora como Director do Museu tivesse muito empenho em arquivar nele essas preciosidades, ficaria mal com a minha consciência, sob o ponto de vista arqueológico, se fizesse a extracção sem participar o que ali tinha encontrado .
  3. Por lealdade escrevi também à Firma " Severo Ramos Lª " (carta de 20 Dez. 1935) dizendo que não sabia ainda se valeria a pena estabelecer ali uma estação de estudo e deixar lá ficar expostos todos os objectos que fossem encontrados .
  4. O Snr. Director dos Monumentos Nacionais escreve-me autorizando-me a tratar com os donos do prédio a compra do terreno. Tocando no assunto aos donos da Abicada, vi tal relutância na venda, que o comuniquei ao Snr. Director-Geral e se julgou preferível não pensar nisso, visto que os donos permitiam as escavações .
  5. Iniciaram-se os trabalhos e os achados foram muito além da minha expectativa, conseguindo pôr à vista tão interessante construção, única no género e uma quantidade de mosaicos superior à encontrada em qualquer outra estação do Norte .
  6. Tive então de declarar aos donos da Abicada que tudo aquilo tinha de conservar-se no local por ser muito interessante para a arqueologia e até sob o ponto de vista turístico .
  7. Isso deu em resultado surgir uma grande má vontade dos Snrs. " Severo Ramos Lª ", que não só não quiseram estipular qualquer indemnização anual, como lhes pedi, mas até tiveram para comigo procedimentos incorrectos tais e tantos, que me levaram a abandonar os trabalhos, não tendo lá voltado desde Setembro do ano passado (1939) . Tinha precisamente nessa altura iniciado os trabalhos de consolidação. Chegaram os donos do prédio a destruir uma parte das escavações .

*   *   *

  • As Efemérides


ABICADA – 1917, SETEMBRO

O Prof. Doutor Leite de Vasconcellos visita a ABICADA à qual se refere nos seguintes termos:
" … A quinta da Abicada dista de Portimão 7,5 quilómetros e faz fronteira à Mexilhoeira Grande. Nesta encontrou o Snr. Maravilhas um belo mosaico que forra o chão de um compartimento rectangular, de cujo restam vestígios em toda a volta. O mosaico é policrómico (cores vermelha, branca e preta) ; tem uma cercadura que abrange desenhos de vários tipos. Junto do referido compartimento há um maior também com mosaico de desenhos diferentes, destruído em parte e quase contíguo vê-se um terceiro fragmento do mosaico. Pelo terreno da Quinta aparecem pedaços de vidro e de tegulas e clavi de ferro"… (in “ARCHEOLOGO PORTUGUES” – XXIII, 128 ; “DE TERRA EM TERRA” – II, 236)

1930, OUTUBRO:


Visita a ABICADA o Dr. José Formosinho acompanhando o sábio alemão, Prof. Doutor Adolf Schulten com o fim de verem os referidos chãos de mosaico, que ainda não conheciam.
"… Foi impossível. De um deles viam-se apenas vestígios ; do segundo compartimento, duas paredes incompletas e estava entulhado  com fragmentos de telhas e ladrilhos modernos ; finalmente o primeiro mencionado estava completamente tapado com terra e ervas , tendo-se-lhe feita uma pequena clareira por onde se descortinavam vestígios de mosaico destruído. (in “ABICADA – Importante Estação da Época Romana no Algarve”, comunicação de 5 /Outº / 1938, do Dr. José Formosinho para Instituto Portug. Arqª; Associação dos Arqueólogos e Dr. João Pereira Dias).


1935, MAIO:

"Com esta ideia fixa, voltei à Abicada e fiz destapar completamente o espaço fechado pelos muros onde se encontrava o primeiro chão de mosaico, o qual estava em regular estado de conservação, excepto o centro que se achava bastante deteriorado; tinha a barra quase inteira e os cantos de Nascente em muito bom estado. Estava coberto por 0,20 m a 0,30 m de terra e por sobre ele passava o arado quando das lavouras, dizendo-me o quinteiro que todos os anos ao lavrar lhe saltavam pedrinhas daquele sítio.  Resolvi por isso extrair para o Museu o que pudesse, salvando-o da destruição que o ameaçava. Fiz igualmente destapar um canto do compartimento entulhado, mas o seu desenho não tinha grande interesse por ser muito simples : uma grega de uma só cor.  Infelizmente não foi possível nesse ano fazer a extracção por falta de verba e quando em, Dezembro de 1937 o fui extrair estava, como receava, bastante mais destruído, só podendo aproveitar dois bocados.
Um velho feitor dessa propriedade disse-me que naquele terreno foram outrora abertas covas para figueiras e que por vezes encontraram pedras aparelhadas, indicativas, de certo, da existência de muros ; era evidente que aquelas construções referidas pelo Snr. Doutor Leite de Vasconcellos deviam ter companheiras e resolvi procurá-las.”…


1935, JUNHO


Tive com o Snr. Director-Geral dos Monumentos Nacionais, Eng. Gomes da Silva, uma larga conversa em que expliquei o que lá presumia haver . Prometeu interessar-se. Autorizou-me a tratar com os donos da propriedade o que fosse necessário para na primeira, oportunidade se iniciarem os trabalhos .
Voltei ao assunto em carta de 16/Dez° :

(Doc. 1) ---» Cópia dactilografada :

Exmo. Senhor

Director-Geral dos Monumentos Nacionais

……………(vários outros assuntos) ......................................

Há poucos meses tendo-nos sido comunicado que em um local denominado ABICADA, tinha sido posta a descoberto uma pequena parte de um chão de mosaico, também já nosso conhecido, pedimos à Câmara que nos fosse concedida uma pequena verba para a sua extracção a fim de evitar que por completo se destruísse. Porém ao tentar umas valas de reconhecimento no local, foi-nos revelada a existência de mais dois ou três chãos e vestígios de construções . Pareceu-nos por isso preferível não proceder à extracção do chão conhecido e tentar estabelecer aí uma estação de estudo da época romana , como nos consta se está procedendo em Condeixa. Não é porém isso possível com as insignificantes verbas de que este Museu pode dispor, que mal chegam para a instalação e conservação .

E porque julgamos que a exploração e estudo destes locais interessam de um modo geral à arqueologia nacional, e que por sua vez o Estado amparando as iniciativas particulares, contribui poderosamente para o desenvolvimento de uma ciência que tanto auxílio tem prestado à história nacional, ousamos rogar a Vª Ex.ª , como grande protector e impulsionador das admiráveis restaurações que neste últimos tempos se têm feito nos Monumentos Nacionais, se digne conceder a este Museu a verba necessária para salvar estes locais da destruição completa que os espera se não se lhes acode a tempo .

Lagos que a Vª Ex.ª já deve a obra de restauro e conservação da Igreja de Santo António e seus anexos, e a quem o País deve a salvação de muitos monumentos que estavam em vias de perder-se, espera ficar-vos mais uma vez profundamente reconhecida .

Lagos, 16 de Dezembro de 1935

A bem da Nação

O Director do Museu Regional de Lagos

ass) José Formosinho

1935, NOVEMBRO (fins )

Falei pessoalmente em Portimão com Severo Ramos pedindo autorização para os trabalhos de escavação. Não deu resposta definitiva por necessitar consultar os sócios .

Por necessitar resposta escrita escrevi dois dias depois pedindo-a (doc. A)  :

(doc. A) ---» Cópia dactilografada :

Exº Senhor Severo Ramos

Com os meus respeitosos cumprimentos, venho rogar a Vª Ex.ª a fineza de me dizer se conjuntamente com seus Exos. Sócios já tomaram resolução sobre a nossa conversa de ante-ontem acerca da Abicada .

É favor que desde já muito reconhecido agradeço .

de Vª Ex.ª

com muita consideração

ass) José Formosinho

 

Não respondeu !

1935, DEZEMBRO /17:


Escrevi novamente dizendo que tinha urgência na resposta (doc. B):

 

(Doc. B) ---» Cópia dactilografada :

Exº Senhor Severo Ramos

Queira Vª Ex.ª desculpar-me vir incomodá-lo de novo, mas recebi agora a autorização da Direcção-Geral para indicar as quantias a levantar para as próximas explorações, devendo enviar os projectos respectivos .

Rogo por isso a Vª Ex.ª a fineza de me dizer o que V. Exas. resolveram sobre os trabalhos da Abicada, a que me referi em minha carta anterior.

Mais uma vez afirmo a V. Exas. que serão indemnizados de quaisquer prejuízos pelo que V.Exas. reputarem, que por ventura venham a dar-se .

Creia-me com muita consideração

Lagos, 17 de Dezembro de 1935

V. Exas

Atº Ven. e Obrº

ass) José Formosinho

 

1935, DEZEMBRO /19:


Responde que autorizam com a indemnização de 5 alqueires de trigo ou Esc.= 120$00 . E que nada deverá ser tirado de lá (doc. C).

 

(doc. C) :



 

1935, DEZEMBRO / 20
Agradeci e fiz considerações (doc. D) .

(Doc. D) ---» Rascunho manuscrito :

Lagos - 20 - Dez. - 1935

Exmo. Snr.

Severo Ramos

Agradeço a Vª Ex.ª reconhecido a pronta resposta à minha carta de 17, bem como a condescendência para que proceda às pesquisas arqueológicas na vossa propriedade Abicada . Por minha parte e como representante (neste caso) do Snr. Director-Geral dos Monumentos Nacionais, que a isso me autorizou, garanto a Vª Ex.ª a indemnização de cinco alqueires de trigo a que Vª Ex.ª se refere na vossa prezada carta ontem recebida .

Sobre a condição de não ser retirado da propriedade objecto alguma encontrado nas pesquisas sem o vosso prévio acordo, é de aceitar unicamente porque se trata de pessoas inteligentes que bem compreendem o intuito e valor científico destes trabalhos . E por isso não oporiam o seu acordo a serem retirados os objectos de valor arqueológico que por motivos óbvios devessem ser retirados.

O Estado subsidiando estas explorações tem em vista : 1º = desenvolver os estudos da ciência arqueológica . 2º = proporcionar às pessoas que se dediquem a esses estudos o exame dos objectos que os possam comprovar .

Por isso concede-nos as verbas necessárias em troca de relatórios circunstanciados dos trabalhos devendo os objectos poderem ser examinados por quem quer que deseje acompanhar e desenvolver os ditos estudos . Para isso criou os Museus e as estações que igualmente subsidia .

Para o caso da Abicada não sabemos ainda se valerá a pena estabelecer lá uma Estação de estudo . Se assim for, todos os objectos que não sejam susceptíveis de deterioração ou desaparecimento aí serão expostos, no local, uma vez organizada a estação .

Se não valer a pena, decerto o bom critérios de V. Exas. se não oporá a que esses objectos que tenham valor arqueológico , recolham ao Museu para poderem ser estudados por todas as pessoas que a esta ciência se dedicam .

Por nos parecer justo e razoável que assim seja e que V. Exas. assim o entenderão não temos dúvida em aceitar a dita condição .

Compreendem V. Exas. que os objectos encontrados seja qual for o seu valor ou espécie e que não tenham valor arqueológico não nos interessam e serão imediatamente entregues a VªEx.ª.

Não procuramos fortunas ou tesouros escondidos, mas sim estudar como viveram os nossos antepassados, as suas pequenas indústrias e todos os esclarecimentos possíveis para que a história, ainda em parte confusa, se possa elucidar . E assim V.Exas. favorecendo estas pesquisas tornam-se credores do reconhecimento de todos os que a estes estudos se dedicam .

Com a maior consideração e os nossos cumprimentos de agradecimento, creia-me

de Vª Ex.ª

Att. Ven. e obrigado

ass) José Formosinho

 

 

(continua)